Panópticos 4

A fórmula de Zeus/ O senhor Bradbury
Uma casa grande, enorme, na verdade interminável, com milhares de quartos dispostos de forma simples em redor de um hall esférico, comparativamente minúsculo, através do qual se tem acesso directo a cada uma das divisões e, também, por onde se entra na própria casa.
Nessa casa apenas um quarto é habitado, por uma família numerosa, normalmente escondida, onde a estrutura de classes é, ainda assim, flagrante; ou então muitos quartos estão ocupados, quase todos, adivinha-se, porque é impossível ver a totalidade dos compartimentos, apenas se assume que eles existem na sequência de um padrão estabelecido. Mas todos esses ocupantes são gémeos, e da parte inferior do escalão social, entre o escravo e o operário manual. E num único quarto, o que tem a decoração ridícula e luzes que piscam em cristais coloridos, vive o dono da casa, o benévolo/ malévolo chefe supremo, que num canto manipula, de vez em quando, uma máquina (que observadores tendenciosos tenderão a comparar com um altar) onde regula, alimenta, controla toda a casa, como se comandando um prodigioso coração mecânico, moderno e vulnerável, que bombeia energia por artérias subterrâneas a pedido do mestre. E é um coração caprichoso, a exigir atenções bizarras (os observadores reconhecerão uma camuflada estrutura ritual).
Por mero acaso chega um visitante. Entra no hall e, de milhares de quartos indistintos escolhe entrar no único habitado, ou então no quarto principal onde o rei brinca com os botões. E apesar da casa ser enormíssima, o rei, ele próprio, usando misteriosos candeeiros na cabeça e desconhecendo aparentemente elementares noções de protocolo, mesmo que exibindo uma sobranceria típica de Oxford e consequente mania das grandezas, recebe a visita num apertado recanto do quarto, onde se vê a máquina alimentadora (o quadro eléctrico, basicamente) e se dá a entender que, apesar de muito vastos e numerosos, todos os quartos, vazios ou com hordas de gémeos paralíticos, são exactamente iguais, embora sem tantas luzes bruxuleantes. Entendem-se logo sem fazer perguntas, e marca-se jantar para dali a bocado, onde se provará que a culinária local é igual às outras, excepto que servida em pratos que cantam.
Ali o senhor da casa pedirá ao visitante que se sacrifique após a sobremesa para alimentar a máquina, salvando o condomínio, constantemente ameaçado de que lhe seja cortada a electricidade, ou que arranje a avaria no quadro (suspeitamos que seja o fusível), pois há muito se perderam os alicates naquele espaço. O visitante ora abandona desagradado o jantar e parte, causando a explosão do edifício inteiro (presume-se que em protesto), ou arranja o fusível e tudo acaba em bem – sabemo-lo depois pelo fogo de artifício onde o rosto do ilustre salvador é momentaneamente desenhado no céu. Cansado, o visitante vai embora para nunca mais voltar.
É isto o tricentésimo quinto livro de Gonçalo M. Tavares, ou a fórmula decadente de quase todos os episódios de ficção-científica que se vão vendo por aqui? Você decide.